A Morte do Demônio (2013) – Quando o título é um fardo

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*Irei interromper o “Especial Chucky” no blog para falar sobre este que é um dos filmes de horror mais falados dos últimos anos. No próximo post, retornarei ao especial :).

Após o desastroso remake de Sexta-Feira 13, decidi que iria tentar sempre manter minhas expectativas em níveis baixos para qualquer novo filme que me interessasse, sendo remake ou não. Afinal, “quanto menor a altura, menor a dor de uma provável queda”. E, após meses de aguardo e entusiasmo para os fãs de terror, chegou a hora de conferir o remake de um dos filmes mais clássicos do gênero. Aliás, vou além: diria que The Evil Dead é um dos filmes mais clássicos da história do cinema. Não é sempre que uma obra realizada com poucos recursos obtém resultado extremamente magnífico, de diversos pontos de vista: Sam Raimi e sua trupe realizaram um filme com paixão, e colheram arte da lama, literalmente ou não.

Pois bem, apesar de eu achar um exagero essa onda de remakes de filmes com um tempo de distância relativamente curto de produção do original (afinal, 30 e poucos anos não é uma diferença de tempo tão grande assim que justifique um remake de forma que não seja o interesse num possível dinheiro fácil), quis muito ver esse filme. Claro, com os “pés no chão”. E acredito que conter a ansiedade foi o melhor. A Morte do Demônio não é um filme ruim, longe disso. Mas, infelizmente, não deixa de parecer um genérico das atuais produções (inclusive, dos remakes de outros filmes da época do original) e sofre com um problema semelhante ao do remake de Dawn of the Dead, Madrugada dos Mortos: o nome que carrega acaba sendo um de seus maiores fardos.

David (Shiloh Fernandez) está indo para a antiga cabana de sua família, no meio de uma floresta, aonde também estarão seus amigos Eric (Lou Taylor Pucci) e Olivia (Jessica Lucas), sua namorada Natalie (Elizabeth Blackmore) e sua irmã Mia (Jane Levy). O motivo de todos estarem no local é a tentativa de ajudar Mia a se livrar da dependência química. Em meio às crises de abstinência de Mia, eles descobrirão indícios de que rituais foram feitos no porão da cabana e lá acham um livro com passagens de rituais e escritos em diversas línguas. Acontece que essas descobertas libertarão algo na floresta e, utilizando Mia, o “mal” irá se manifestar e atacar todos na cabana.

Não há muito mais o que dizer do roteiro, ou então eu estaria inserindo vários spoilers aqui. Os atores são medianos e, talvez em decorrência do andamento do filme, o maior destaque aí seja a Jane Levy. Agora, uma crítica que está de certa forma relacionada às atuações não pode deixar de ser feita, algo que aliás não é exclusividade deste filme, como também de muitos dos filmes atuais: a forma como os personagens reagem à ferimentos graves, como golpes fortes e até mesmo amputações, é muito equivocada, pois o que vemos são gritos, ma leve expressão de dor e pronto. Por mais que o personagem, presume-se, tenha se ferido e lascado de jeito, age como se pouco ou mesmo nada tivesse acontecido na próxima cena. Isso tira muito o impacto que um filme do tipo deveria ter, que seria aproximar tais reações à realidade, afinal, um braço amputado deve doer pra caralho e debilitar demais.

Os efeitos de som são muito bons e a trilha incidental é majestosa, porém empregada de forma equivocada em muitas vezes. Os efeitos de gore são estupendos, e aqui está um dos pontos fortes do filme: não somente foi acertada a recusa dos CGIs, como os efeitos “à moda antiga” estão muito bem feitos e, principalmente, naturais. Closes em cortes e ferimentos profundos não faltam, assim como o sangue que jorra sem dó! A cena final é o ápice disso tudo e certamente agradará à grande maioria dos fãs do gore! Além disso, apesar de o filme dar um direcionamento diferente à franquia, algumas citações em homenagem ao original estão presentes, como alguns lances de câmera e frases (claro, além da cena pós-créditos que fez a alegria dos fãs).

Então, após a ansiedade de muitos ter acabado, fica a pergunta: o filme é bom? É um filme interessante. Como já mencionei, é bastante violento e explícito. Porém, se você tirar o gore, não passa de um filme genérico. Um dos maiores erros do filme é seu roteiro, que peca principalmente em dois pontos: na forma como tenta criar dramaticidade e na condução do terror. A relação problemática irmã-irmão é tão clichê que faz com que logo de cara já fiquemos um pouco de saco cheio, afinal, problemas familiares causados por descaso ou distância já foram usados milhares de vezes no cinema, principalmente nos filmes de 2000 pra cá. Então, quando o filme engrena, uma coisa que me incomodou muito é o fato de o perigo estar expressado em apenas um “demônio” ou algo do tipo. Vejamos: quando um não oferece perigo, outro oferecerá. Quando for solucionado o problema com esse, outro irá encher o saco. Essa condução comedida tira bastante todo o impacto que um filme como esse deveria ter (e como o original teve): imagine só, uma cabana cheia de demônios, poucos recursos para combatê-los…é um prato cheio para muito suspense, situações agoniantes e momentos ainda mais extensos. Mas aqui não ocorre isso: muitas situações acontecem de repente e não são sustentadas, o que além de não ajudar no suspense se assemelha muito a algo como uma “descida de montanha russa em que o carrinho para a todo momento”.

Enfim, essas foram minhas considerações sem levar em consideração que é uma nova “roupagem” para um clássico do gênero. Um filme bom, apesar de ser um tanto similiar aos filmes atuais. Agora, vou um pouco mais a fundo: como remake, vale a pena? Acho que o fato de carregar o nome “Evil Dead” é um dos maiores fardos dessa produção. Mencionei antes e repito aqui: Madrugada dos Mortos foi um filme muito críticado em sua época por ser remake de “Dawn of the Dead”, de George Romero. Porém, caso tivesse outro título e não fosse relacionado ao que Romero fez, acredito que as opiniões pudessem ser mais “bondosas”, afinal aquele foi um filme bom, no qual foi cometido o erro craso de ser infeliz na liberdade de alterar pontos chave do original, sendo o mais explícito aqueles “zumbis velocistas” que tanto foram difamados pelos fãs. Pois bem, com esse A Morte do Demônio ocorre a mesma coisa. Aliás, apesar de a tag “O filme mais apavorante que você verá nesta vida” ser mais uma menção ao clássico, o filme falha em ser vendido como tão impactante quanto o original foi para sua época. Por mais que os efeitos sejam muito bons e o gore role solto, a forma como a violência é contida durante grande parte do filme incomoda, além de a violência como foi mostrada não ser mais tão impactante para nossa geração acostumada à torture-porns como Jogos Mortais. Fede Alvarez fez um trabalho até competente, mas a condução ineficaz da trama deixa genérico um filme que tinha tudo para ser angustiante. Ao contrário do original, em que até mesmo o psicológico de Ash era posto à prova, em que o clima era soturno e até mesmo a trilha sonora contribuia ao enganar (de forma positiva) o espectador, aqui a fotografia é apenas suja, o roteiro se perde em tentar criar uma profundidade que não é necessária e não expande o pavor além da violência explícita.

Desta forma, concluo que A Morte do Demônio é um filme satisfatório, principalmente num tempo em que o gênero está muito mal das pernas no cinema. Mesmo sem considerar que é um remake e sem comparar com o clássico de 1981, comete erros que comprometem uma diversão que poderia ser imensa. Agora, se compararmos com o original, encontraremos mais erros do que acertos. Então, vamos deixar nossa paixão pelo clássico um pouco de lado e observar esse filme como uma opção atual do gênero sem relacioná-lo com o título que carrega. Afinal, compará-los acaba sendo covardia.


Nota: 7,0

Estados Unidos, 2013 / Elenco: Jane Levy, Shiloh Fernandez, Elizabeth Blackmore, Lou Taylor Pucci, Jessica Lucas. Roteiro: Diablo Cody, Fede Alvarez. Produção: Bruce Campbell, Joseph Drake, Sam Raimi. Direção: Fede Alvarez.

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